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Johann Emanuel Pohl - Viagem ao Interior do Brasil

Johann Emanuel Pohl


Foto: © Österreichische Nationalbibliothek, Wien

Viagem ao Interior do Brasil (1817-1821)

No Estado de Goiás, as primeiras descrições que chegaram a ser divulgadas são as de dois viajantes estrangeiros do Planalto Central no século passado: João Emanuel Pohl e August de Saint-Hilaire. Transcrevo aqui e não em notas ao final do capítulo, como tenho feito em outros casos, passagens completas de ambos os autores. São os primeiros registros de maior circulação e além disso, descrevem acontecimentos folclóricos que guardam, depois de 150 anos, alguns pontos de notável concordância com o que se assiste ainda hoje em cidades de Goiás.

Começo pelo longo texto de Pohl e não me limito à descrição da Cavalhada. O que Pohl conta de toda a festa do Espírito Santo, assistida em Santa Cruz, merece registro.

“Durante a minha estada em Santa Cruz, levaram-me a assistir à festa de Pentecostes, que começou com grande solenidade. Já na tarde de nossa chegada começara o barulho sem o qual os brasileiros não fazem festa. A essa hora a localidade estava muito animada, pois todos os habitantes pertencentes ao julgado, de perto ou de longe, haviam chegado com suas famílias para abrilhantarem a festa. Observei, entre as mulheres, fisionomias notadamente belas.

Nesta noite, todas as ruas do lugar já estavam iluminadas; defronte da residência dos chamados imperador e imperatriz eleitos para essa festa havia arcos triunfais, caramanchões de folhas verdes. Ecoavam trombetas e timbales, eram disparados tiros de alegria e entoados cantos de louvor ao Espírito Santo. Apareciam diante da casa cavaleiros vestidos de branco, em palos com gualdrapas brancas, campainhas e guizos. Traziam grandes lanternas de papel sobre altos bastões. Passou ainda um carro de duas rodas onde se comprimiam alguns cantores; e o canto desses homens unido ao rangido do carro produziam um concerto atroador. Assim continuou por metade da noite, rua acima e rua abaixo. Foi ainda queimado um fogo de artifício. – No dia da festa propriamente dito, ao romper do dia, já havia barulho e tropel nas ruas. O comandante e os habitantes mais distintos vieram prestar-me homenagens e a guarnição uniformizada, constante de dez soldados, marchou diante de minha casa, fazendo-me continência. A música consistia num violoncelo, tocado por um tambor. Finalmente, dirigimo-nos, precedidos da tropa, à residência dos chamados imperadores. Ele estava sentado em sua sala sob um docel, todo vestido de preto, com uma coroa de papel e um cedro pintado. Descia-lhe dos ombros um manto e da botoeira pendia um crucifixo de latão. Cada pessoa que entrava devia dobrar o joelho diante dele. Naturalmente eu ao fui excluído dessa cerimônia. Então cada um dos presentes recebeu um cajado branco de um vara de comprimento, com o qual os notáveis, entre os quais fui contado, formaram um quadrado em torno do imperador. Um pajem sustinha a cauda do manto e assim se pos o cortejo em movimento. Na frente do cortejo, era levada a bandeira do Espírito Santo. Na igreja, o padre apresentou o hissope e o imperador foi conduzido a um trono, no interior. Foi eleito por sorte o imperador do próximo Pentecostes: a sorte caiu sobre o filho de Coelho, o dono de Caldas Novas, um rapaz de 15 anos. Em conclusão foi lida a lista da quantia com que devia contribuir cada dignatário. Depois de terminada a solenidade religiosa, durante a qual foram prestadas todas as homenagens ao imperador e foram consagrados pães, iniciou-se o regresso, durante o qual as mulheres espargiam sobre a cabeça do imperador grãos de milho, que deviam trazer fertilidade a sua casa. – Em seguida, o imperador sentou-se a uma mesa de 40 talheres, que já estava posta. Aos seus lados fomos colocados o vigário e eu. Eu sentia muita dor de cabeça e pouco podia comer da mesa ricamente servida. Como bebida, apareceu vinho de laranja, muito doce e agradável, porém muito embriagante, e cachaça com abundância. Foram proferidos brindes à saúde do imperador e os improvisadores recitaram poesias de circunstância. Apenas decorrera um hora do banquete durante a qual o imperador fazia a sesta na rede, e já começaram a soar nas ruas as trombetas e tambores e o povo se reunia na praça, defronte da igreja de Nossa Senhora do Rosário, para assistir ao jogo dos cavaleiros. O comandante e o juiz vieram buscar-me; dirigimo-nos à casa do primeiro, diante da qual a tropa estava formada. E ele saudounos. Então partiu o cortejo para a praça. Seguiram à frente, as mulheres da família do comandante, envoltas em mantos; depois os soldados, aos pares, com a música e finalmente eu, tendo à direita o comandante e à esquerda o juiz, e, por fim, os demais habitantes. Na parte de cima da praça, estavam os cavaleiros, vestidos com o uniforme português, em formatura e saudaramnos com as suas espadas. A praça, muito espaçosa, estava repleta de espectadores. Tomamos assento numa elevada tribuna de ramos. Os ramos de palmeiras protegiam-nos ao mesmo tempo contra o sol. Mais abaixo estavam os soldados. Por meio de uma risca traçada a cal a praça estava dividida em forma de cruz. O jogo foi iniciado com o aparecimento de estranhos mascarados, que, com as caretas e chicotes, provocavam gargalhadas, especialmente um deles que representava um mestre-de-dança francês. Era um figura escaveirada com uma rabeca feita de uma cabaça escavada, coberta com um pano branco. Dentro dela havia escondido um gatinho. Quando o mestre-de-dança tocava com o arco ou com o dedo no animal, este soltava sons lamentosos, com o que o povo parecia divertir-se imenso! – Então começou o jogo propriamente dito, que representava um combate entre os mouros e os portugueses. Um grupo dos mouros muito bem vestidos penetrou na praça, saudando com as espadas, seguindo-se-lhes os cavaleiros portugueses. O espetáculo foi aberto por uma embaixada que oferecia a paz aos mouros se eles passassem para a religião cristã. A oferta foi recusada e principiou o combate. Os mouros foram vencidos e convertidos. Durante as pausas do espetáculo, eu tive de conformar-me em percorrer a praça em todas as direções, com os soldados à frente; em toda parte éramos cumprimentados com gritos de viva pelos homens que descobriam a cabeças; depois do que voltávamos à tribuna e o espetáculo continuava. O combate foi executado com admirável habilidade; as evoluções, o lançamento dos venábulos, o esgrimir das espadas despertaram-me sincera admiração. Era perfeito o manejo dos cavalos, e estes de admirável beleza. Nenhum acidente no combate perturbou a alegria geral. Ao pôr-do-sol, findou-se o espetáculo, que devia ser continuado no dia seguinte. Acompanharam-me, ao som da música, até em casa. Como eu me sentia bastante indisposto muito me alegrou poder ir para a cama. Eu sentia desfalecimento e acesso de vômito a que mal podia resistir. Quando eu já estava acamado, mandou-me o imperador a maior torta de sua mesa e vários pratos com frutas e conserva; o barulho, nas ruas, continuou até meia-noite. Apesar de meus achaques, assisti, na segunda-feira do Espírito Santo, à continuação e fim do espetáculo. A conclusão foi um torneio, executado com admirável habilidade. Acompanharam-me de novo a casa, com a música; na minha residência esperavam-me todos os cavaleiros, que me saudaram com um viva uníssono!” (Pohl, 1951: 240 a 242).

POHL, Emanuel. Viagem ao interior do Brasil. Rio de Janeiro: MEC-INL, 1951.

Fonte:

Mais informações:

http://sitiodarosadosventos.com.br/livro/images/stories/anexos/cavalhadas.pdf

Indice = 298

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